BLOG CAÉTICO - Espaço de leitura, história & especulações / Por Inácio França
Perguntei e me arrependi no ato.
- Quem foi que escolheu o local desta Academia da Cidade?
Não havia qualquer problema com o teor da pergunta. O problema foi a
forma, a inflexão que dei à voz. Sou como uma crítica irônica, mas estava
apenas curioso por causa do caminho que seguíamos, nos afastando do centro,
deixando o asfalto para trás e entrando numa área que já lembrava a zona rural.
As outras academias da cidade – áreas
ao livre para ginástica comunitária com equipamentos esportivos, pista de
corrida e quadra esportiva – que já tinha visto pelo interior de Pernambuco
eram sempre na entrada da cidade, às margens de alguma rodovia, de preferência
uma BR movimentada. É assim em Tuparetama. É assim em Orobó. É assim em Sanharó.
Também é assim em Glória do Goitá.
Em Venturosa, a academia foi construída longe dos olhos da classe média
local e dos motoristas que passam pelas duas estradas que se cruzam na cidade e
a dividem em quatro pedaços.
A secretária de Educação, Sônia, respondeu sem demonstrar ter
interpretado mal o motivos da minha curiosidade:
- Foi o prefeito que decidiu o local.
O “local” é a Vila Bacurau, 200 casas populares construídas pelo Governo
Federal e inicialmente ocupadas por moradores da cidade que viviam em barracos
ou casas de taipa.
Além disso, há crianças. Centenas delas. Só a pastoral da criança
acompanha 550 com idade máxima de seis anos. Todas moram na vila ou na Rua
Nova, nome da comunidade vizinha e conhecida por ser a área mais carente da
cidade até a ocupação da vila Bacurau com dinheiro do PAC.
E crianças crescem.
Esta é a razão de ser da escolha do prefeito. Dentista, cirurgião
buco-maxilar para ser exato, ele não tem qualquer formação, militância ou
experiência na área social, mas sabe – ou intuiu – que é preciso criar espaços
de lazer e de convivência para evitar que a Bacurau se transforme numa
versão reduzida das favelas das capitais.
A academia foi construída a meio caminho entre duas escolas, uma mais antiga
que foi ampliada na tal Rua Nova e outra novinha, construída na mesma época em
que o novo bairro ganhava forma. Antes, o prefeito precisou vencer uma
queda-de-braço com os burocratas da secretaria estadual das Cidades que queriam
porque queriam botar a academia na beira da BR. Para garantir mais
visibilidade.
Quando surgiu a possibilidade do
ministério da Educação repassar mais dinheiro para a construção de uma creche
moderna, com berçário, refeitório, serviço de nutricionista, salas de aula para
educação infantil, parque de diversões, pátio interno e até um pequeno
anfiteatro, o prefeito não teve dúvidas: vai para a Vila Bacurau também.
Para
confirmar que está firme em suas convicções, decidiu construir uma quadra
coberta poliesportiva no terreno por trás da escola. E olhe que na vila Bacurau
não tem tantos votos assim. Lá moram 200 famílias. No resto do município estão
os outros 16 mil habitantes.
O prefeito, por sinal, é homem de poucas palavras e sorrisos contados a
dedo. Na frente de sua casa não há aquela tradicional fila de eleitores pedindo
favores, dinheiro ou agrados. Ele não dá esmolas, nem gosta de distribuir
apertos de mão ou tapinhas nas costas. Seu comportamento atípico para um
político do interior lhe garantiu a fama de pouco acessível e antipático.
Mesmo assim, foi reeleito com folga em 2008. Pelo jeito, seus
conterrâneos também não se encaixam nos estereótipos dos eleitores forjados por
quem mora na capital.

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