quarta-feira, 27 de junho de 2012

Minhas histórias do Brasil profundo: Venturosa e o desenvolvimento.

BLOG CAÉTICO - Espaço de leitura, história & especulações / Por Inácio França


Perguntei e me arrependi no ato.
- Quem foi que escolheu o local desta Academia da Cidade?
Não havia qualquer problema com o teor da pergunta. O problema foi a forma, a inflexão que dei à voz. Sou como uma crítica irônica, mas estava apenas curioso por causa do caminho que seguíamos, nos afastando do centro, deixando o asfalto para trás e entrando numa área que já lembrava a zona rural.
As outras academias da cidade – áreas ao livre para ginástica comunitária com equipamentos esportivos, pista de corrida e quadra esportiva – que já tinha visto pelo interior de Pernambuco eram sempre na entrada da cidade, às margens de alguma rodovia, de preferência uma BR movimentada. É assim em Tuparetama. É assim em Orobó. É assim em Sanharó. Também é assim em Glória do Goitá.
Em Venturosa, a academia foi construída longe dos olhos da classe média local e dos motoristas que passam pelas duas estradas que se cruzam na cidade e a dividem em quatro pedaços.
A secretária de Educação, Sônia, respondeu sem demonstrar ter interpretado mal o motivos da minha curiosidade:
- Foi o prefeito que decidiu o local.
O “local” é a Vila Bacurau, 200 casas populares construídas pelo Governo Federal e inicialmente ocupadas por moradores da cidade que viviam em barracos ou casas de taipa.
Além disso, há crianças. Centenas delas. Só a pastoral da criança acompanha 550 com idade máxima de seis anos. Todas moram na vila ou na Rua Nova, nome da comunidade vizinha e conhecida por ser a área mais carente da cidade até a ocupação da vila Bacurau com dinheiro do PAC.
E crianças crescem.
Esta é a razão de ser da escolha do prefeito. Dentista, cirurgião buco-maxilar para ser exato, ele não tem qualquer formação, militância ou experiência na área social, mas sabe – ou intuiu – que é preciso criar espaços de lazer e de convivência para evitar que a Bacurau se transforme numa versão reduzida das favelas das capitais.
A academia foi construída a meio caminho entre duas escolas, uma mais antiga que foi ampliada na tal Rua Nova e outra novinha, construída na mesma época em que o novo bairro ganhava forma. Antes, o prefeito precisou vencer uma queda-de-braço com os burocratas da secretaria estadual das Cidades que queriam porque queriam botar a academia na beira da BR. Para garantir mais visibilidade.
Quando surgiu a possibilidade do ministério da Educação repassar mais dinheiro para a construção de uma creche moderna, com berçário, refeitório, serviço de nutricionista, salas de aula para educação infantil, parque de diversões, pátio interno e até um pequeno anfiteatro, o prefeito não teve dúvidas: vai para a Vila Bacurau também.
Para confirmar que está firme em suas convicções, decidiu construir uma quadra coberta poliesportiva no terreno por trás da escola. E olhe que na vila Bacurau não tem tantos votos assim. Lá moram 200 famílias. No resto do município estão os outros 16 mil habitantes.
O prefeito, por sinal, é homem de poucas palavras e sorrisos contados a dedo. Na frente de sua casa não há aquela tradicional fila de eleitores pedindo favores, dinheiro ou agrados. Ele não dá esmolas, nem gosta de distribuir apertos de mão ou tapinhas nas costas. Seu comportamento atípico para um político do interior lhe garantiu a fama de pouco acessível e antipático.
Mesmo assim, foi reeleito com folga em 2008. Pelo jeito, seus conterrâneos também não se encaixam nos estereótipos dos eleitores forjados por quem mora na capital.

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